Assembleia Entrevista analisa avanços e desafios dos 20 anos da Lei Maria da Penha
Defensora pública Natália Marcondes Estefani fala sobre os efeitos da legislação no combate à violência doméstica.
A violência contra as mulheres e os desafios para ampliar a proteção às vítimas foram tema do programa Assembleia Entrevista, da TV Assembleia, desta semana. A defensora pública Natália Marcondes Estefani, que atua na Coordenadoria Especializada de Defesa dos Direitos das Mulheres em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cedem), da Defensoria Pública do Paraná (DEP/PR), analisou os avanços proporcionados pela Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), que completou 20 anos, e as dificuldades que ainda precisam ser enfrentadas.
De acordo com uma pesquisa dos Institutos Patrícia Galvão e Locomotiva apresentada durante o programa, 54% das mulheres que já tiveram relacionamentos com homens afirmam ter sofrido algum tipo de violência ao longo da vida. Em contrapartida, apenas 11% dos homens entrevistados reconhecem já ter praticado alguma forma de violência.
Para a defensora, essa diferença entre as percepções revela uma barreira cultural ainda presente na sociedade brasileira. "Essa negação masculina é uma tendência que demonstra uma barreira cultural muito forte que a gente tem no nosso país", afirmou. Segundo ela, comportamentos como ciúme, possessividade, controle sobre a roupa, os relacionamentos, os deslocamentos e as amizades da mulher, muitas vezes apresentados como demonstrações de cuidado, podem configurar formas de violência psicológica.
Tipos de violência e medida protetiva
"Todo o advento da Lei Maria da Penha e todos os estudos em cima do tema foram ampliando o leque, mostrando que a violência contra a mulher é muito mais do que só a violência física", disse, chamando atenção para uma modalidade de violência que, por não deixar necessariamente marcas físicas, pode ser mais difícil de identificar. Prevista na Lei Maria da Penha, a violência psicológica pode envolver perseguições, comportamentos de controle, xingamentos, humilhações e outras condutas que provoquem sofrimento psicológico ou dano moral. Além de pontuar que a violência pode continuar mesmo depois do fim do relacionamento, há também o ambiente digital, que passou a ser utilizado para a prática de violência. A defensora relatou casos em que é necessário recorrer à Justiça para retirar do ar perfis ou páginas utilizados para expor ou perseguir mulheres.
Outro ponto abordado pela defensora foi a dificuldade enfrentada por mulheres que, mesmo depois de buscar ajuda, pensam em desistir de medidas protetivas. Segundo ela, muitas mulheres acreditam precisar retirar a medida protetiva porque continuam tendo filhos com o agressor e precisam manter algum tipo de contato para tratar de questões relacionadas à pensão ou à convivência com as crianças. "Nesses casos, é possível buscar uma readequação da medida para permitir, de maneira segura e pontual, a comunicação necessária sobre os filhos." A defensora também falou sobre outros tipos de violência, como a patrimonial.
Participação de Maria da Penha
Durante o programa, foi exibida uma mensagem de Maria da Penha Maia Fernandes, símbolo da luta contra a violência doméstica no Brasil. Há 43 anos, ela sofreu uma tentativa de feminicídio que a deixou paraplégica. Na fala, ela ressaltou que os 20 anos da legislação representam uma conquista histórica, mas também devem servir para renovar compromissos com a prevenção, a educação, o fortalecimento da rede de proteção e a garantia de orçamento para as políticas públicas. Ela defendeu a atuação conjunta dos três Poderes e de toda a sociedade no enfrentamento da violência contra as mulheres, destacando a necessidade de levar o debate para escolas, universidades, famílias, ambientes de trabalho e demais espaços de convivência.
"A própria Lei Maria da Penha aponta os caminhos para o seu fortalecimento. No artigo 8º, ela fala de prevenção, educação, integração entre os serviços, produção de dados, campanhas permanentes e capacitação continuada dos profissionais que atuam na rede de enfrentamento e atendimento. É por isso que precisamos levar este debate para as escolas, para as universidades, para as famílias, para os ambientes de trabalho, para as igrejas, para todos os espaços onde a vida acontece, porque a violência não acontece necessariamente de repente: ela é construída dentro de uma cultura que ainda naturaliza desigualdades e discriminações", diz ela na mensagem exibida.
A ativista também chamou atenção para o crescimento da violência praticada no ambiente digital e para discursos que naturalizam a desigualdade e a misoginia. "Os homens não são os nossos adversários. O machismo é, a misoginia é, a violência é. E a construção de uma sociedade mais justa depende de mulheres e homens comprometidos com o respeito, a igualdade e os direitos humanos", afirmou Maria da Penha.
Mudanças na legislação
Ao comentar os 20 anos da Lei Maria da Penha, a defensora pública afirmou que a legislação provocou mudanças importantes na forma como o Estado e a sociedade passaram a compreender a violência doméstica e familiar. "A Lei Maria da Penha trouxe um aspecto muito positivo, que foi trazer para o debate público a necessidade do Estado de resguardar e de prestar assistência qualificada e humanizada para as mulheres em situação de violência doméstica e familiar. Então, isso foi fundamental. Até então, esse tema não era tão debatido, não era tão abordado", afirmou.
E, entre os avanços, citou a ampliação do debate público, a criação e o fortalecimento de serviços especializados, a capacitação de profissionais e a evolução da legislação para acompanhar novas formas de violência. A defensora também destacou a inclusão da violência vicária, caracterizada pelo uso dos filhos ou de outras pessoas próximas para atingir a mulher, como uma das formas de violência doméstica. "Essas mudanças demonstram que a Lei Maria da Penha é uma legislação que precisa acompanhar as transformações da sociedade. E esses 20 anos da legislação representam, portanto, uma oportunidade para reconhecer os avanços conquistados e, ao mesmo tempo, fortalecer os mecanismos de prevenção, acolhimento e proteção às mulheres em situação de violência", comentou.
Assembleia Entrevista
O programa "Assembleia Entrevista", da TV Assembleia, pode ser assistido pelo canal 10.2 (TV Aberta, em Curitiba e Região Metropolitana) e pelo canal 16 (Claro/NET). O programa é transmitido às quintas-feiras, às 13 horas, com reprise às 18 horas.
Confira a íntegra do programa clicando aqui.
Notícias Relacionadas
Tradições, fé e resistência: programa Arte e Cultura mostra a rica história da Lapa
Em entrevista à TV Assembleia, o historiador e pesquisador Márcio Assad fala sobre o Cerco da Lapa, a visita de Dom Pedro II, o Teatro São João, a devoção ao monge João Maria e a luta para levar a história do Paraná às salas de aula.
Leia mais
TV Assembleia realiza cobertura ao vivo do primeiro turno das eleições neste domingo (4)
Com dois estúdios, equipes de reportagem nas ruas de Curitiba, especialistas e integração com a Rede Legislativa e com a equipe de comunicação da Câmara de Vereadores de Curitiba, emissora acompanha a apuração e os resultados do pleito.
Leia mais
Conversa Saudável debate anafilaxia e a importância do atendimento imediato
Em entrevista à TV Assembleia, a médica alergista Loraine Landgraf explica como identificar os sinais, o que fazer na emergência e por que o acesso à adrenalina autoinjetável ainda é um desafio no Brasil.
Leia mais
TV Assembleia: Programa Sou Cidadão mostra como a indústria paranaense acolhe trabalhadores migrantes
Gerente de Responsabilidade Social do Sesi Paraná, Aline Calefi, fala sobre o programa Indústria Acolhedora, que já alcançou mais de 260 empresas.
Leia mais