Após 35 anos, jornalista aposenta o bloco de anotações
A jornalista Sandra Pacheco recorda-se bem de nomes, pessoas e fatos que aconteceram em 35 anos trabalhando na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), como servidora efetiva da Diretoria de Comunicação.
O início do vínculo de Sandra com a Assembleia foi em 17/7/1984, data em que tomou posse após ser aprovada em concurso público. No entanto, já era frequentadora do aquário da imprensa do Plenário: cobrira as sessões para jornais paranaenses por oito anos. “Tomamos posse e começamos a trabalhar. Meu primeiro trabalho na Assembleia era ligado à Diretoria Geral; fazia levantamento de dados. Rodava as secretarias de Estado, a prefeitura, o Palácio Iguaçu. Depois comecei cobrir as sessões, o trabalho das comissões”, relembra.
Acompanhou a rotina da Assembleia até dias atrás. O dia-a-dia de cobertura, conta, não mudou muito nestes anos. Não se não fosse um fato: a tecnologia. “Sem dúvida o grande impacto no trabalho como jornalista foi a informatização. Começamos martelando em máquinas de escrever. Depois as matérias eram xerocadas e distribuídas na área de imprensa. Também haviam envelopes com o material para os jornais no final da tarde. A papelada é impensada hoje em dia... então veio o computador”.
Sandra viveu por décadas na esfera da política. Podia levar na memória muitas coisas. Prefere recordar aquilo que aprendeu. “O que aprendemos com o tempo é como a política é um terreno sujeito às mudanças, alterações que podem ser rápidas ou podem demorar. Pessoas chegam ao topo e desabam. Aprendemos a ficar mais prudentes, céticos, mais atentos. Observar a cena política nos ajuda a manter os pés no chão. Isso é absolutamente necessário. Aprendemos a virtude do caminho do meio, a importância do diálogo”, diz ela.
A jornalista diz que a Assembleia lhe permitiu um posto privilegiado na observação das últimas quatro décadas da história política do Paraná e do Brasil. “Me orgulho de ter podido acompanhar de perto como jornalista esses 43 anos de fatos políticos contemporâneos. Como jornalistas, somos observadores, mas observadores bem próximos da história. Hoje penso que se não tivesse tido essa oportunidade – e a profissão me permitiu – não conseguiria olhar para a cena política nacional e ter uma opinião. Esta é uma percepção importante como experiência de vida”.
Em todos estes anos, viu a vertigem da tecnologia e a lenta informatização; viu um prédio de vidros negros ser construído; viu indignação e protestos; viu literatos, juristas, amigos, poetas; viu discursos históricos e histórias; viu acampamentos de guerra, derrotados de guerra e as vitórias do povo; viu várias vezes o terreno amorfo do poder mudar seu centro; viu eleições; viu o sol se por detrás de um palácio; viu a democracia entrar por estes vitrais; viu a explosão da galáxia de Gutenberg; viu a história do povo decidida aqui mesmo, sim, olha ali, é a historia da nossa gente que está acontecendo bem diante de nós...
O último texto de Sandra foi sobre a aprovação de um projeto na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Foi publicado no dia 1/7/19. Depois ela se aposentou. Era uma segunda-feira.
E agora? Agora tudo. A família que cresce, os netos brincando, a leitura atrasada, o crochê preso na agulha, a casa de praia, o curso de italiano parado, qualquer coisa. “Sentir-se dona do seu tempo é uma virtude”, constata. E a Assembleia, o jornalismo, o trabalho? “Já sinto falta da sensação de movimento, mas por enquanto, não tenho nenhum projeto”. Quem sabe no futuro, completa.
Alguém poderia se recordar agora (não sem rancor) daquele trecho em que Cormac McCarthy diz: “A liberdade dos pássaros me insulta.” Não neste caso. A liberdade (e o ócio) é um orgulho (e um direito). Bom descanso, Sandra. Foi um prazer. E o nosso muito obrigado pelos anos, tempo e esforços dedicados a esse Poder!
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