Especialistas apontam descaso do poder público com a saúde mental
Os representantes das várias instituições ligadas ao setor alertaram para a gravidade da situação, principalmente em Curitiba, onde vários serviços privados se desligaram da Prefeitura por razões diversas, entre elas o descumprimento de promessas feitas há mais de um ano em relação à melhoria da estrutura para esse tipo de atendimento. Os profissionais denunciaram desde a falta de sintonia entre os órgãos encarregados da distribuição de leitos até questões trabalhistas e a falta de especialistas para atender internamentos de emergência feitos no período noturno, aí englobados pacientes portadores de doenças mentais como esquizofrenia ou transtorno bipolar, dependentes químicos e alcóolicos.
Precariedade – O presidente da Associação Paranaense de Psiquiatria, André Rotta Burkiewicz, deplorou o fechamento da residência do Hospital Nossa Senhora da Luz, um dos mais tradicionais da capital paranaense, a precariedade do atendimento ambulatorial e o desmonte da área de regulação da Prefeitura de Curitiba. Segundo ele, os 14 profissionais que ali trabalhavam foram deslocados para outros setores e substituídos por pessoal sem treinamento.
Disse também que as UPAs – Unidades de Pronto Atendimento – não aceitam pacientes psiquiátricos ou os reencaminham para locais já assoberbados, e que duplicou o número de pacientes psiquiátricos no complexo médico penal em decorrência da falta de um acompanhamento continuado dos casos mais graves. Apontou a existência de leitos ociosos nos hospitais integrais porque toda a ênfase dos serviços públicos estaria voltada aos CAPS – Centros de Atendimento Comunitário – que considera insuficientes e não equipados para a assistência aos casos mais complexos. Acrescentou ainda que o governo federal liberou apenas 11% dos recursos prometidos para a assistência à saúde.
Marcelo Daudt Von Der Heyde, preceptor chefe da Residência do Hospital Nossa Senhora da Luz e professor da Residência do Hospital de Clínicas, afirmou que o sistema atual permanece pautado pelo movimento antimanicomial deflagrado na Itália há algumas décadas e que começa a ser revisto até mesmo naquele país. Reforçando a falta de leitos para o atendimento de pacientes em crise, apontou falhas na politica nacional para a área, que destina R$ 50,00 para as diárias de pacientes psiquiátricos do SUS nos hospitais especializados, enquanto o custo diário é de R$ 130,00.
Para ele, os CAPS são importantes como rede complementar de assistência aos pacientes psiquiátricos, mas não substituem hospitais nem suprem a falta de uma rede ambulatorial eficaz. Os profissionais presentes ao encontro apresentaram discursos muito semelhantes, de crítica ao subfinanciamento da saúde e à exclusão de hospitais privados tradicionais das políticas públicas, além de endossarem a necessidade do fortalecimento da atenção básica.
Alessandro Bandeira, coordenador administrativo do Hospital Espírita de Psiquiatria Bom Retiro, relatou que a instituição tem instalações modernas e amplas, está equipada e tem leitos disponíveis para internações, mas vem sendo sistematicamente ignorada pelo modelo de atendimento público atual. E Ricardo Sbalqueiro, que atua em clínica particular, em CAPS e em comunidade terapêutica, enfatizou as dificuldades e a demora para conseguir a liberação de leitos, indicando ineficiência por parte da Central de Leitos de Curitiba. Ao final da audiência, seus participantes concluíram pela necessidade de mobilização da sociedade com o objetivo de mudar esse estado de coisas e levar o poder publico a assumir sua responsabilidade nessa luta.
Participaram ainda do evento que lotou as dependências do Plenarinho na manhã desta terça-feira o diretor clínico da Clínica Ômega, Guilherme Gois, o diretor do Projeto Propulsão da Pontifícia Universidade Católica (PUC/PR) Altieri Edemar Frei, e o médico psiquiatra do Hospital-Dia, representante da Clínica Hélio Rotenberg, Gabriel Jorge.
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