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Audiência Pública discute sucessão rural e o papel das Casas Familiares Rurais na formação de jovens agricultores

O debate, promovido pelo deputado Professor Lemos (PT), definiu a criação de um Grupo de Trabalho para acompanhar e formular políticas públicas para o meio rural.

Thaís Faccio
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Audiência ocorreu na manhã desta quarta-feira (20), no Auditório Legislativo. Foto: Valdir Amaral/Alep

Debater a importância das Casas Familiares Rurais (CFRs) para o fortalecimento da agricultura familiar, a sucessão rural, a permanência e o desenvolvimento dos jovens no campo foi o objetivo da audiência pública promovida nesta quarta-feira (20), no Auditório Legislativo da Assembleia Legislativa, pelo deputado Professor Lemos (PT). "Queremos debater a pedagogia da alternância, um modelo educacional implementado nas Casas Familiares Rurais, instituições de ensino destinadas a jovens do campo, especialmente aqueles envolvidos na agricultura familiar", explicou o deputado.

A principal finalidade, comentou, é garantir que os jovens que frequentam essas escolas permaneçam em suas propriedades, evitando o êxodo rural e a busca por empregos nas cidades. "Este modelo tem demonstrado resultados positivos em diversos países e, no Paraná, os alunos formados nessas escolas têm a oportunidade de continuar suas atividades no campo, com melhores condições para alcançar uma qualidade de vida satisfatória", pontuou.

Atualmente, o Paraná conta com 16 Casas Familiares Rurais, onde os estudantes permanecem em regime de internato por uma semana, dedicando-se integralmente aos estudos e, posteriormente, retornam às suas famílias. Durante esse período, professores e monitores acompanham os alunos em suas propriedades, auxiliando na aplicação prática dos conhecimentos teóricos adquiridos.

Originária da França, essa metodologia educacional se difundiu globalmente. Na Europa, diversos países adotam a pedagogia da alternância em suas escolas rurais. No Brasil, sua presença se estende por vários estados. "Especificamente no Paraná, buscamos valorizar as 16 escolas existentes, assegurando-lhes maiores recursos públicos e fomentando a expansão dessa modalidade educacional para outros municípios", afirmou o deputado.

Desafios e reivindicações

Para o presidente da Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores Familiares do Paraná (Fetaep), Alexandre Leal dos Santos, as Casas Familiares Rurais e a educação no campo são fundamentais para motivar a juventude e prepará-la para a atividade agrícola. "A Federação desempenha um papel crucial ao divulgar as políticas públicas, como as linhas diferenciadas do Pronaf e do Crédito Fundiário, disponíveis aos jovens agricultores", disse, ao lamentar a redução do número de Casas em funcionamento, de 44 para 16.

"Este modelo comprovadamente contribui para a preparação, a qualificação e a formação dos jovens, além de promover o desenvolvimento prático em suas propriedades. Diante da atual redução, a audiência busca refletir e apresentar reivindicações para fortalecer as Casas Familiares Rurais no Paraná", afirmou.

Os desafios e as reivindicações enfrentados foram apontados pelo coordenador estadual da Federação das Casas Familiares Rurais do Paraná (Fecafar), Marco Geffer. "Buscamos a revisão do curso técnico em agricultura. Ele não abrange áreas como zootecnia e criação de animais, que são essenciais para muitos agricultores familiares. Queremos reformular os cursos oferecidos atualmente para atender às demandas da agricultura familiar, dos territórios e dos municípios onde as Casas estão instaladas", disse. A reivindicação é por um curso mais abrangente, que inclua a formação em pecuária. Segundo ele, essa alteração proposta não implicará custos adicionais para o Estado, pois a infraestrutura e os profissionais já estão disponíveis. A mudança se concentraria na matriz curricular e no conteúdo do curso.

A estudante da Casa Familiar Rural de São Jorge D'Oeste, Djenifer S. Schwingel, comentou sobre a importância dessa mudança e da Casa para sua formação. "Desde pequena, sempre morei no interior e nunca planejei ir para a cidade. Então surgiu o curso, um caminho a mais, pois quero ser médica veterinária. Decidi que tentaria, confiando que daria certo, e está abrindo portas para mim", contou. Para ela, a reformulação é necessária. "No interior, por exemplo, minha mãe vende queijo e, para isso, precisamos cuidar das vacas, da saúde delas, da alimentação — tudo exige um cuidado especial. Por isso, para mim, a veterinária e a agronomia são importantes", disse.

Criação de um Grupo de Trabalho

Para o presidente do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR), Richard Gonçalves, as Casas Familiares Rurais são estratégicas e constituem um modelo com a virtude de formar jovens agricultores. "Hoje, há no Paraná mais de 250 mil estabelecimentos rurais a serem geridos, por isso defendo este modelo." Ele acredita que a pedagogia da alternância é uma forma de formar agricultores que irão gerir propriedades rurais nas próximas décadas. Como solução, defendeu a criação de um grupo de trabalho para debater o tema.

A superintendente federal do Desenvolvimento Agrário no Paraná (SFDA/PR), ligada ao Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), Leila Aubrift Klenk, disse ser necessária uma modernização do modelo para que as Casas sejam atrativas aos jovens, e também defendeu a criação do grupo de trabalho.

A diretora técnica da Secretaria de Agricultura e Abastecimento (Seab), Fabiana Cristina de Campos Romanelli, destacou a importância de uma educação direcionada a quem vive no campo. "Temos que ter um olhar diferenciado, uma formação específica, trazendo inovações para construir a formação do jovem do campo", disse.

A representante da União Nacional das Casas Familiares da França (UNMFRE), Elizabeth Fries, disse que o conceito nasceu na França em 1937 e que hoje existem 430 Casas Familiares no país, com quase 100 mil alunos. Segundo ela, há mais estudantes nas Casas Agrícolas do que nos Colégios Agrícolas, e as Casas francesas contam atualmente com 18 áreas de formação. "Esse modelo tem uma grande capacidade de adaptação, mas o apoio do Estado é fundamental para o sucesso do programa, assim como o suporte das instituições e as políticas públicas de incentivo."

Também participaram do debate o presidente da Federação das Casas Familiares Rurais do Paraná (Fecafar), Nelson Vilmar Miranda; o superintendente Regional do Incra no Paraná, Nilton Bezerra Guedes; o prefeito de Santa Maria do Oeste, Oscar Delgado; a pedagoga e coordenadora do Setor de Educação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), Janiele Kogus; o presidente da Coordenação da Política Estadual de Defesa dos Direitos da Juventude, Silberto Cardoso; Adroaldo Hoffelder, representando os pais e os alunos das Casas Familiares Rurais do Paraná; o secretário de Políticas Sociais da Contag, Antonio Erinaldo Lima Vasconcelos; o secretário educacional da APP Sindicato, professor Vandré Alexandre Benedito da Silva; o presidente da Central dos Trabalhadores do Brasil (CTB), Alexandre Hungaro da Silva; a secretária-geral de Juventude, Meio Ambiente e Políticas Sociais da Fetaep, Tainá Guanini de Oliveira; além de educadores, estudantes, agricultores e representantes de entidades.

Casas Familiares Rurais

As Casas Familiares Rurais (CFRs) são instituições de ensino e projetos comunitários voltados à formação de jovens do campo, oferecendo Ensino Médio integrado à educação técnica agrícola. O modelo busca incentivar a sucessão familiar no meio rural e reduzir o êxodo rural, permitindo que filhos de produtores e agricultores familiares tenham acesso gratuito à educação sem abandonar as atividades na propriedade.

O ensino é baseado na pedagogia da alternância, em que os estudantes dividem o tempo entre a escola e a propriedade rural. Durante um período, permanecem na Casa Familiar Rural para as aulas teóricas e, em seguida, retornam para casa, onde aplicam na prática os conhecimentos adquiridos, aliando a experiência no campo ao aprofundamento técnico e científico.

Entre os principais objetivos estão a qualificação dos jovens para tornar o meio rural mais atrativo e rentável, o ensino de técnicas modernas de produção, gestão rural, sustentabilidade e agregação de valor aos produtos, além da formação de lideranças capazes de fortalecer a agricultura familiar e as comunidades rurais.

  

  

AUDIÊNCIA PÚBLICA - "CASAS FAMILIARES RURAIS"

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